7 de maio de 2010

Uma análise #2 - "Meteoro", Luan Santana

A música sertaneja vive de metáforas do mesmo jeito que as impressoras da HP vivem de tinta: consumindo igual ao nariz, sem nenhum sinal de que isso muda um dia. Para piorar, o sertanejo usa metáforas como eu e você cozinhamos arroz: não sabemos muito bem o que estamos fazendo, mas o importante é que fique pronto.

Uma metáfora consiste em aproximar duas coisas por uma característica em comum que elas possam ter – e a graça está em aproximar coisas bem diferentes, mas que se relacionem em algum ponto. Dizemos que Maria é uma flor porque as duas são delicadas e perfumadas, não porque a moça tenha seiva bruta ou estômatos.




 Mas, para a música sertaneja, metáfora é usar duas palavras, ao mesmo tempo, que você nunca se lembre de ter visto juntas. Nas próximas linhas, veremos como Luan Santana tem uma música guiada por uma metáfora sobre universo que, besta dizer, não faz o menor sentido.

Luan Santana consegue tomar conta de duas panelas ao mesmo tempo.

"Meteoro" começa assim:

Te dei o Sol,

Te dei o Mar
Pra ganhar seu coração

A gente entende que o amor promova atos grandiosos, mas, de verdade, porque uma pessoa daria o sol para outra? Imaginem a cena: “oi querida, te trouxe essa bola entupida de hidrogênio que vai torrar sua casa e toda sua vizinhança. Só cuidado que está quente!”. O mais injustificável, porém, é que, diferente de “mar”, que depois vai fazer rimas riquíssimas com verbos da primeira conjugação, “sol” não rima com mais nada, na música inteira. Logo, qualquer outra palavra de uma sílaba cabia no verso: “Te dei o sal”, “Te dei o céu”, “Te dei o trem”, até “Te dei o c*”, se fosse uma temática mais ousada.

Você é raio de saudade

Na primeira rodada de metáforas descabidas, nós temos “raio de saudade” – um exemplo claro de peça quadrada em um encaixe redondo. “Saudade” é um sentimento melancólico, motivado pela distância e o longo tempo sem contato. Um “raio” é uma descarga elétrica que dura milésimos de segundo – o que, pelo menos para mim, não combina muito com distância nem tempo longe. Logo, de duas, uma: ou a metáfora quer dizer “sinto saudade de você só um minutinho, mas depois passa” – o que não condiz com o histórico tom dor-de-corno do sertanejo – ou é algo como “quando sinto saudades de você, sou atingido por um jato de eletricidade que faz, em média, 30 vitimas fatais por ano”.

Meteoro da paixão
Explosão de sentimentos que eu não pude acreditar
Aaaahh... como é bom poder te amar

Luan Santana não consegue esperar muito, e logo no quinto verso, já tasca a metáfora que dá titulo para sua música: “meteoro da paixão”. Meteoros não são coisas exatamente agradáveis, já que consistem em bolotas de amônia congelada, que podem causar problemas para o universo, incluindo, provavelmente, o fim dos dinossauros. Quando a música alcança “Explosão de sentimentos que eu não pude acreditar”, fica mais clara a intenção por trás desse trabalho de ciências da quinta série: a idéia era comparar o amor a coisas violentas e intensas (raio, meteoro, explosão) mas, no fundo, o que se consegue mesmo é falar sobre coisas potencialmente letais. A primeira estrofe de “Meteoro” não é sobre o amor; é sobre acidentes cósmicos.

Depois que eu te conheci, fui mais feliz
Você é exatamente o que eu sempre quis
Ela se encaixa perfeitamente em mim
O nosso quebra-cabeça teve fim

Não tem nada errado com os dois primeiros versos da segunda estrofe – salvo, claro, que eles são um lixo. Mas a coisa fica estranha a partir do terceiro verso, quando Luan Santana mostra que jamais leu “O aparelho formal da enunciação” de Emile Benveniste, ou, para ser mais justo, nunca escreveu uma redação no colégio. Quando as coisas estão girando entre o “eu” e “você” ainda está tudo bem, mas quem é “ela”, que aparece no 3º. verso? E quem somos nós (“nosso”), no 4º. verso? Aparentemente, primeiro ele está conversando com a tal mulher, depois ele está conversando com outra pessoa, depois ele volta a conversar com a mulher e com a outra pessoa – ou seja, tem gente demais nessa estrofe.

E, claro, essa estrofe também tem uma metáfora. Aqui, o quebra-cabeça deixa de ser um jogo de raciocínio e sinônimo de problema intricado e complexo para se tornar uma mera questão de encaixe – ou seja, o quebra-cabeça de Luan Santana é composto de 20 peças, bem grandonas, com uma ilustração da Turma do Pooh.

Se for sonho
Não me acorde
Eu preciso flutuar
Pois só quem sonha
Consegue alcançar

A terceira estrofe se assenta sobre uma bobagem de significação entre sonhar (produzir imagens durante o sono) x sonhar (ter desejos), resultando em uma bobagem de auto-ajuda, com esse papo mole de alcançar seus desejos com perseverança e tudo-é-possível-para-quem-acredita-bla-bla-bla. Mas a parte divertida é que dá para sentir que a vontade era rimar “sonhar” com “alcançar”, ou mesmo “acordar” com “alcançar”, mas a gramática do português – esse monstro! - não deixou. A solução, então, é fabricar um verso intermediário com um verbo da primeira conjugação – e então escolheram aquele que menos fazia sentido. As pessoas não flutuam quando dormem – a menos que você seja uma bóia sonâmbulo. Mais uma vez, o espaço pedia qualquer verbo terminado em AR, de três sílabas: cabia “descansar”, “levantar” ou até mesmo “arrotar”. Eu votaria nesse último.

A música poderia terminar aqui, e já entraria para o hall de sucessos instantâneos que te fazem pensar porque você não consegue ganhar um dinheiro fácil desses. Mas, em algum ponto, alguém se lembrou “ei, e aquela metáfora com universo que a gente usou lá no começo da música, e que não foi retomada em momento algum! E se a gente a usasse outra vez?”. Então fabricaram uma quarta estrofe:

Tão veloz quanto a luz
pelo Universo eu viajei
Vem me guia, me conduz
Que pra sempre te amarei

Com um olho na wikipédia, nós temos dois versos sobre a velocidade da luz, que por si só são comuns, mas que não tem absolutamente nada a ver com tudo o que veio antes, e menos ainda com o que vem depois. Por que o sujeito precisa de um guia, se ele viajou o Universo? Será que ele fez isso sem saber para onde ia? “Ei, aqui é Júpiter? Ah, Saturno, desculpe, deve ser mais para lá então. Obrigado”. A metáfora do Universo é retomada apenas para estes dois versos, que simplesmente não acrescentam nada! Para complicar, o terceiro verso é um primor de criatividade, usando dois verbos para dizer a mesma coisa – como se alguém te dissesse: “quero te convidar para jantar, para comer a comida da noite em casa”.

Fim das contas, o que nós temos é o seguinte: metáfora sobre universo > metáfora do quebra-cabeça > metáfora sobre sonhos > outra metáfora sobre o universo. Não bastasse isso não ter coerência alguma, as duas metáforas sobre o universo não conversam uma com a outra: primeiro, a mulher é o meteoro, e depois, o cara é o viajante do espaço? Ele sabe que se o meteoro atingir uma nave, vai fazer ela em pedacinhos, não sabe?

A música sertaneja está tomada por essas canções com uma metáfora tosca que não leva a lugar nenhum: “borboletas no jardim”, “leilão do meu coração”, “eu sou a cana, você a moenda, vamos fazer um caldo-de-cana do amor” etc. Só nos resta torcer para que, um dia, um meteoro passando pela Via Láctea fique bravo com o uso indevido de sua imagem e venha cobrar seus direitos, e aí nós teremos uma explosão de sentimentos interessante.


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